Absorvente de plástico, que mal tem?

Por Clarissa Cruz

Descartável é tudo aquilo que usamos muito pouco e que, mesmo se reutilizado, é pouco também. Em muitos casos os descartáveis podem ser reciclados, mas, no Brasil, quase nunca são. Assim, eles seguem poluindo o meio ambiente e os nossos corpos. Aqui entra em cena o absorvente de plástico.

Do ponto de vista da praticidade, ele é uma evolução. Porém, no que diz respeito à saúde, ele pode ser considerado um atraso. Não nos referimos apenas à saúde da mulher, mas também, à saúde da Terra. O plástico libera substâncias altamente tóxicas em seu processo de fabricação, no uso e no descarte. 

Falaremos disso mais adiante, vem com a gente!

Breve histórico

No final do século XIX — quando uma enfermeira percebeu que uma bandagem absorvente utilizada para conter o fluxo sanguíneo de soldados feridos, poderia ser útil para as mulheres — a humanidade não tinha ideia do que estava por vir. Nessa época, os absorventes eram um misto de celulose e pedaços de algodão.

Bem antes disso, em diversas culturas — como na egípcia no ano de 2000 a.c. — há relatos de pedaços de pano, pele de animais e até plantas sendo utilizados na tentativa de conter o fluxo menstrual. Correndo na linha do tempo, no início do século XX, surge o primeiro polímero sintético, isto é, o plástico artificial.

Revolução industrial

Nesse ponto, inicia-se a atuação desse material onipresente em nossas vidas. Essa junção de petróleo, carvão e gás natural passa a ser bem quista pelas indústrias em função da sua maleabilidade e durabilidade. Será que esses industriais avaliaram direitinho o fator ‘durabilidade’ em algum momento?

Hoje sabemos que não, e conhecemos bem os efeitos dessa ‘conquista’. Fato é que indústrias — de marcas existentes até hoje — perceberam uma oportunidade naquelas ‘almofadas higiênicas’ e passaram a fabricá-las especialmente para as mulheres. Claro que, tão logo possível, o plástico entrou em sua composição, pois esse material foi se tornando cada vez mais barato e acessível.

Nunca estivemos na pauta favorável do patriarcado

Juntando-se a tudo o que já foi mencionado, decidiu-se que as almofadinhas deveriam ser descartáveis. Assim, o lucro seria maior e toda uma sociedade não precisaria lidar com os paninhos ‘sujos’ de sangue. Não é verdade? Aqui vemos claramente o patriarcado ditando as regras.

Essa coisa de nos fazer omitir ou dissimular a menstruação é um insulto à nossa liberdade. Além de ser uma tentativa cruel de fazer com que os nossos assuntos nunca estejam na pauta como deveriam, pois querem nos fazer acreditar que são um tabu e uma vergonha, para, então, permanecermos à margem.

Não somos descartáveis

Mas não somos sujas nem descartáveis! É por isso que precisamos falar. É pela nossa segurança, pela nossa saúde, pelos nossos direitos e necessidades tão peculiares. Sim, esse absorvente descartável é, também, uma questão sócio-cultural a ser tratada.

Para a antropóloga Daniela Tonelli Manica, "a importância desse movimento de valorização do sangue menstrual, de visibilidade (...) é a valorização do corpo feminino e da sua diferença". 

Absorvente de plástico afeta a saúde da mulher

O plástico afeta nossa saúde de diversas maneiras. No caso dos absorventes, para que eles fiquem branquinhos, os materiais que os compõem passam por um processo de clareamento. Para isso, utiliza-se o cloro que, quando atinge uma certa temperatura, produz a dioxina, que é um subproduto altamente tóxico e perigoso.

Essa substância é cancerígena e, ao utilizar o absorvente de plástico, a pele da sua vulva absorve o tal veneno. Além da dioxina, uma outra substância extremamente preocupante vem ocupando os estudos da Dra. Enriqueta Barranco Castillo, ginecologista e pesquisadora espanhola.

Cólicas intensas, excesso de fluxo e endometriose

De acordo com ela e outras cientistas, diversos produtos têm parabeno em sua composição. Desde os ‘alimentos’ ultraprocessados, passando pela cosmética e produtos de higiene pessoal que não são naturais, chegando então, àqueles que entram em contato com a nossa mais bela intimidade.

A Dra. Enriqueta começou a desconfiar do excesso de reclamações de suas pacientes em relação à cólica e a fluxos extremamente intensos. Isso sem falar do número crescente de casos de endometriose. A questão é que o parabeno é um hormônio-símile, ou seja, é artificial, isso faz com que o organismo seja confundido, tendo seu funcionamento alterado.

O meio ambiente também sofre

Como mencionamos no início do texto, os descartáveis são passíveis de serem reciclados. Mas, em muitos casos, uma tecnologia avançada e cara é requerida. Sendo esse o caso de resíduos compostos, que precisam ter seus materiais separados para, aí então, passarem pela reciclagem. 

Imagine que, no Brasil, de acordo com Gabriela Otero, coordenadora técnica da Abrelpe — Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais —, o reaproveitamento de materiais não compostos como alumínio, papel e plástico não chega a 3% dos já poucos 13% dos resíduos sólidos que vão para a reciclagem. 

Imagine, então, quando nosso país estaria preparado para reciclar um produto de tamanha complexidade como os absorventes plásticos?

Enquanto isso, eles vão se avolumando em lixões, aterros sanitários, nos rios, lagos e mares. O problema vai se agravando com o acúmulo de todas as substâncias, como o parabeno e dioxina, liberadas diariamente. Elas atingem animais marinhos e terrestres, além do próprio ser humano, pois retornam para nós através das águas.

Até hoje não encontraram uma boa solução

Alguém pode perguntar, mas e se forem levados para a incineração, assim como é feito com o resíduo hospitalar? Aí, minha amiga, nosso problema só será agravado. Essas substâncias são tão perigosas que se as incineradoras não tiverem filtros de tecnologia avançadíssima, o risco é mortal e muito mais imediato. 

Além disso, tal qual acontece na reciclagem, os equipamentos incineradores têm um custo elevadíssimo, assim como o serviço de manutenção, que requer conhecimento técnico altamente qualificado. Colocamos ainda nesse cenário a famosa corrupção presente em nosso país, e podemos imaginar o insucesso que seria a fiscalização, não é mesmo?

Sabemos o quanto é difícil mudar os hábitos individuais, imagine toda uma cultura? Mas não somos descartáveis, precisamos mudar e precisamos fazer isso agora. Os corpos femininos estão adoecidos, assim como o corpo da Terra e dos homens também. Abolir o absorvente de plástico da sua vida é um passo importantíssimo rumo à prática do bem em prol do coletivo.

“Mas como?” Você pode estar se perguntando agora. Talvez você não tenha percebido, mas nos últimos anos, há um belo resgate acontecendo. São os absorventes de pano, ou bioabsorventes.

Eles estão ganhando cada vez mais adeptas, pois além de serem seguros para a saúde da mulher e da Terra, são econômicos, lindos e um símbolo da libertação dos nossos corpos. Inclusive, a Pachamama foi uma das pioneiras nesse resgate em 2010, sabia?

Está no nosso DNA libertar o corpo feminino e regenerar a Terra, e os bioabsorventes são um símbolo importante desse ativismo. Que tal se abrir para um novo hábito?

 

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Créditos imagem: Sage Szkabarnicki-Stuart